quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Conto:"O salão de beleza"!:)....enviado

 "O salão de beleza"

Já não era com alegria que Nídia se dirigia para o salão de beleza onde começara a trabalhar fazia quase seis meses. De início, pensava ela que as pequenas situações de desconforto no relacionamento do seu local de trabalho iam-se resolver por si. Não era o caso.
Alícia que trabalhava no salão de beleza já fazia três anos tinha um historial de infernar a vida das colegas que começavam no emprego ao ponto delas abandonarem o posto e desandarem. Era a forma de Alícia dominar o território onde detinha prestígio junto da patroa, por conhecer muito bem a mulherada da zona e assim atrair clientes. Qual a patroa que desdenharia uma empregada assim?
Nídia reconhecia essa competência em Alícia. Ela era amável para as clientes embora logo que saissem da porta comentava os defeitos e para Nídia isso era uma caraterística que a fazia ter dúvidas da integridade da colega. E com mais reservas do caráter de Nídia ficou quando soube por uma prima que não há quem aguente por muito tempo a pressão colocada por Nídia.
-Como você pensa que consegui que lhe chamassem para trabalhar nesse salão de beleza com dezenas de candidatas em busca dessa função?
- Pois, - concordava Nídia - quando a esmola é muita...Mas oiça, eu preciso desse trabalho e quem sabe se comigo não será diferente?
Com esse pensamento sabemos que Nídia confia que os problemas podem ser afastados tal como nuvens são levadas pelo vento, sintoma porventura de uma baixa auto-estima que na verdade causava-lhe momentos de ansiedade, pois melhor que resolver problemas é evitá-los.
Alícia, pelo contrário, rumava no sentido oposto...Certo dia, Nídia ausentou-se para resolver assuntos do ensino de sua filha, com o devido conhecimento da patroa.
- Mas você sai do seu trabalho sem dizer nada, sobrando tudo para mim? Você não tem mãe que possa resolver isso por você? - questionou em tom firme Alícia.
Nídia respondeu de forma branda. - Falei com a patroa. É a ela que devo satisfação. Para sua surpresa e alívio, Alícia virou as costas e voltaram ao ofício sem mais conversas nesse dia.
Certo dia, Nídia foi convocada para reunião com a patroa. Foi informada que teria que assegurar as faltas de Alícia durante um mês inteiro, a pedido desta, pois teria que realizar uns tratamentos que, por coincidência, calhavam nesse dia da semana.
Nídia era uma mulher perspicaz. E compreendeu se haveria coincidência neste caso foi o da vingança de Alícia por aquele dia em que ela se ausentou do trabalho para resolver os seus assuntos. Nídia era pessoa simples, humilde e branda, mas na verdade sentia que a margem da não reação estava cada vez mais curta.
E na verdade, durante algumas semanas, houve vários bate-bocas entre as duas cabelereiras. Podia ser um pretexto bem insignificante, mas  cada uma tentava atingir a outra. Nessas semanas, a patroa passou algum tempo no seu salão de beleza e percebeu o clima de guerra que estava instalado. Sabia que muitas vezes era Alícia que começava a lançar palavras contra a colega de profissão, na esmagadora maioria das vezes sem razão que justificasse. Nídia já não se continha nas respostas e as expressões e olhares que lançava contra Alícia preocupavam a patroa. De vez em quando a patroa dizia para Nídia que elas tinham que se entender.
-- . A senhora não tem culpa, mas ela é bem ruim. E estou preocupada com o meu futuro e para falar a verdade com o futuro deste salão de beleza.
Nídia percebera que Alícia na verdade intimidava a própria patroa. E pensava que esta poderia perder o negócio. E certo dia, a patroa confessou que Alícia era um problema que não tinha solução. A não ser que alguém a colocasse no seu lugar.
- Nídia, eu vou ser honesta. Houve meninas que contratei para ver se davam um fora para Alícia, mas ela vem de família desordeira e ela pode ser bem grosseira. Eu terei que me ausentar do país durante meses e gostaria de ficar tranquila sabendo que o negócio vai ficar em boas mãos.
- De início eu não vi como era Alícia. Não a conhecia, mas logo fui vendo que ela é uma cabrita! Mas o problema é seu, para mim o importante é manter o emprego.
- Pois então, lute por ele! - disse a patroa, sem que Nídia percebesse a intenção verdadeira da frase.
A patroa sabia bem que Alícia era boa de briga. No ano passado, uma cliente manifestou-se indignada com o tratamento de cabelo recebido e disse que não ia pagar. Mas antes de sair da porta, Alícia confrontou fisicamente a cliente. Alícia tinha 32 anos, morena e de pele bronzeada. Elegante, com 1,67m mas não tinha um rosto simpático. Adorava praia e a vida da rua e não era nova em brigas de mulher... E assim dominou a caloteira de forma rápida, apesar de fisicamente similares. Bastou derrubá-la com um puxão de cabelos e montar em cima, desferindo alguns tapas que bastou para que aquelagritasse «Eu pago! Eu pago» mesmo que o tratamento do cabelo tenha, no fim de contas, outro.
Este episódio seria muito improvável com Nídia, que já sabemos preferir não enfrentar os problemas. Mas no fundo, ela sabia que havia problemas que teriam que ser encarados. Mas com os dias a passar, a conclusão mais óbvia seria deixar o salão de beleza e arranjar outro emprego. Só teria que ganhar coragem e pedir a demissão à patroa. Só que nesse preciso dia, em que tinha acordado decidida a dizer que ia deixar o trabalho, a patroa trouxe uma novidade que lhe baralhou os planos: a Alícia pediu para gozar as férias no mesmo tempo que você?
- O quê?- disse incrédula. Não concordo com isso, desculpe.
- Então, Nídia? Alícia pediu um favor e ela, na verdade, está cá tem mais tempo.
- Não concordo, eu já safei várias faltas dela, enquanto ela reclama quando compensa uma falta minha na sua folga. Desta vez, não posso aceitar.
- Eu já falei que você e Alícia têm que se entender.

 Nídia percebeu que não poderia mais fingir que os problemas não existem.

Parte II
Nídia! - falou firme Alícia quando o salão de beleza estava vazio - quem mandou você contestar as minhas férias? Quem você pensa que é?
- Você não manda aqui, Nídia! Os meus dias de férias são meus e você não vai roubar.
- Está-me a chamar de ladra?
A partir daqui ambas as cabelereiras deixam de se ouvir e entram em discussão acesa. Alícia consegue impor-se por falar mais alto e até sente-se bem com o momento, e Nídia por não se sentir tão bem, consegue acalmar-se um pouco e tenta ficar em silêncio. Mas perante os desaforos e esbracejar de Alícia, deixa-se contagiar e começa também a esbracejar e a ficar com o seu belo rosto ruborizado do calor da discussão. Isso faz Alícia ficar mais furiosa e descontrolada.
- Dona Mercedes! - grita -, venha rápido aqui! Olha que se ela vem para cima de vim, ela vai apanhar tantas! ameaça.
- Dona Mercedes, ainda bem que chegou na hora certa. Eu não ia agredir a Alícia. A senhora sabe que sou incapaz disso.
- Men inas, meninas, acalmem-se e escutem a minha voz - pede de forma serena a Dona Mercedes. Eu vou voltar a sair. Têm que se entender! Eu vou fechar a porta, mas tem mais uma chave em cima do balcão. O assunto fica arrumado hoje!
Alícia, mais impusiva, ouve a patroa, mas estava ainda exaltava e apontava a mão para Nídia, ameaçando. - Se me tocas, você vai apanhar!
Nídia, percebe nesse instante a frase dita anteriormente pela Dona Mercedes, que acabava de deixar a chave no balcão. «Lute pelo seu emprego!». Isso implicava perder as estribeiras, algo que ela sempre evitara! Porém sentia-se injustiçada e durante meses foi manipulada e gozada por Alícia. Na verdade, Nídia sentia que a sua colega merecia um castigo e só gostaria que a Dona Mercedes tomasse uma atitude que retirasse Alícia do seu pedestal. Agora, percebia que Dona Mercedes contava que essa iniciativa deveria ser tomada por si.
- Pode ser então que toque em você, sua nojenta! - diz Nídia, então deixando a cólera tomar conta de seu corpo.
- Vem que você apanha! - diz Alícia enquanto já caminha em direção.
- Então vamos ver quem é que vai apanhar! - grita Nídia, indo rumo a Alícia, já nem sentindo as palavras que normalmente eram medidas antes de sair de sua boca.
A primeira bofetada entre as cabelereiras apanha Nídia no lado esquerdo de seu rosto, mas que devolve o gesto à rival acertando também no rosto, mas com a parte de fora da mão direita. Alícia arregala os olhos, pois não esperava o troco de Nídia de quem pensava ser mosca morta. Mas Nídia, embora medisse 1,57m e com mais 13 anos, estava ali em sua frente agora saltitando e fingindo dar com a mão embora não fosse dar o golpe, e mantendo os braços com mãos levantadas em frente do seu peito. Mostrava estar bem vivinha!
Alícia, tal como Nídia, mantinha umas calças brancas e bata negra de trabalho com corte nos cotovelos, vendo-se no seu braço esquerdo uma tatuagem de tesoura de corte de cabelo.
Ainda com o calor da bofetada de Nídia na face, arranca decidida e lança a mão de novo em Nídia, que apanha de novo, soltando na voz um sinal de dor.
 - Vais levar mais cabra! - gritou Alícia. Mas Nídia, ainda que levantando a cabeça, pensava «Vai ser bem tramado...mas vou ter que lhe dar» e lança um grito e dirigi-se com o br aço no ar falhando desta feita o alvo. Alícia era de facto mais experiente em briga de mulher, e a altura dava uma vantagem. Deu dois passos em frente e já encostada a Nídia, segurou-lhe o cabelo com força. Nídia sentiu uma dor aguda, pois como seu cabelo ficava caído pelo pescoço, fez com que a rival lhe agarrasse com uma mão na raiz do cabelo em cima, e outra mão pela nuca.
- Eu vou-te dar uma porrada que nunca você pensou, cabra! - diz Alícia olhando para a expressão de dor de Nídia. Fazendo um esforço maior com o peso do seu corpo consegue empurrar Nídia completamente descabelada para trás caindo desamparada sobre um móvel de produtos de cabelo . O impacto foi tal que o móvel vira para detrás, espalhando pelo chão vários produtos, estando na bagunça as socas que saltaram dos seus pés. Nídia mal recupera a noção, pressente a chegada de Alícia, agarra por instinto em uma laca de spray que estava no chão e prontamente dispara o spray que atinge em cheio os olhos da cabelereira, que grita bem alto com o ardor «Sua cabra, ai quando te apanhar». Era a oportunidade que surgia, pois Nídia percebera que a altura de Alícia seria uma dificuldade enorme naquela briga. Ai nda sentada no chão,  pontapeia com toda a força acertando na barriga da rival. Enquanto Alícia  curva-se com os braços agarrados à barriga, Nídia voltando a colocar-se em pé e grita bem alto jogando novamente o seu pé descalço no ar acertando no rosto de Alícia com toda a força que tinha. Alícia recua vários metros e embate no armário de rodas que tinha vernizes que espalham dando cores e tons de vermelho e rosa no chão.
- Aqui não vais dar nada, vaca! Eu vou dar um tratamento de beleza em você! - provocava Nídia confiante, pois Alícia mantinha dificuldade em abrir os olhos.
- Eu vou acabar com você! - replicava ainda Alícia, pensando que tinha que agir, e assim o fez, lançou-se contra Nídia e o embate dos corpos fez com que ambas caissem no chão tentando cada uma enfiar as mãos no pescoço uma da outra. Alícia usou a vantagem da sua estatura para forçar mais o pescoço de Nídia, a qual não tendo a mesma força lança literalmente as unhas no rosto de Alícia, causando três linhas de sangue. Em reação, os seus olhos abrem-se da dor aguda que lhe foi infligida, reagindo com um soco de mão direita que acerta na testa de Nídia. Estávamos perante uma luta épica, em que nenhuma das cabelereiras refreava os golpes e cada uma sabia que no fundo, não haveria mais lugar naquele salão de beleza para a derrotada.
No momento, Nídia é atingida pela segunda e terceira em cheio no nariz, que primeiro fica bem vermelhão e depois cai um fio de sangue. Os berros de dor eram maiores de Nídia, que em desespero arqueia o corpo e lança um braço para trás, agarrando um fio de um secador de cabelo que estava caído. E de rompante, puxa para si o secador. No preciso momento em que lança um soco no olho esquerdo de Nídia que estava por debaixo, Alícia é atingida com violência com um secador de cabelo na cabeça. Nídia e Alícia ficam então deitadas lado a lado, de barriga para o ar, de respiração ofegante, gemendo cada uma a seu jeito, descabeladas ambas, mais Nídia, pois Alícia ainda mantinha o cabelo preso. Quando Alícia levanta-se ficando sentada no chão pensando em voltar a usar o punho, Nídia faz passar o fio do secador de cabelo em torno do pescoço da rival e apertando grita «Agora isto vai terminar a meu favor, filha da puta». Alícia, apanhada, de surpresa tenta enfiar os dedos entre o fio e  pescoço. Mas a pancada do secador segundos antes, e a forma como Nídia se colocou por detrás do seu corpo aproveitando o peso do seu corpo para puxar o fio tornava impossível qualquer reação. Alícia rendia-se aos poucos, mas nunca o admitia apesar de ouvir«Tu querias, mas este salão de beleza vai ser meu, vaca». Enquanto ainda tentava um último esforço, e antes de perder os sentidos, sentiu uma pressão adicional pela prisão de pernas de Nídia que estando por detrás ainda conseguiu fazer uma chave em torno de sua cintura. enquanto mantinha preso o pescoço de Alícia.
Quando esta perdeu os sentidos, Nídia olhou para o rebuliço em sua volta. O salão de beleza teria que ser parcialmente remodelado. Mas isso seria o mais fácil.  O lado mais selvagem que desconhecia que habitava em seu ser revelara-se essa tarde. A luta que no fundo gostaria de protagonizar realmente aconteceu e a chave do salão de beleza era seu por direito.
Alícia nunca mais foi vista.

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