Numa tarde de primavera, o pátio da Escola Municipal Sol Nascente ainda ecoava gritos e empurrões. João e Pedro, ambos de nove anos, tinham se agarrado por causa de uma briga de futebol. Quando as mães foram chamadas, o clima ficou pesado.
Carla, mãe de João, era alta, de cabelos castanhos presos num rabo de cavalo e expressão severa. Márcia, mãe de Pedro, era mais baixa, loira, de olhar firme e voz cortante. Na reunião com a diretora, as duas trocaram acusações:
— Seu filho começou tudo! — disse Carla.
— O meu só se defendeu! — retrucou Márcia.
A diretora pediu calma e combinou que as crianças ficariam de castigo. Mas o rancor não ficou na escola. No dia seguinte, Carla mandou uma mensagem:
“Precisamos conversar de verdade. Sem as crianças. Parque da Lagoa, às 17h. Vamos resolver isso de uma vez.”
Márcia respondeu com um simples “Estarei lá”.
Elas se encontraram sob o pé de um flamboyant antigo. O parque estava quase vazio. No começo tentaram falar baixo, mas logo as vozes subiram.
— Você cria o menino solto demais! — acusou Carla.
— E você só sabe proteger o seu como se ele fosse santo! — respondeu Márcia.
Uma empurrão. Depois outro. Em segundos as duas estavam se agarrando. Carla puxou o cabelo de Márcia; Márcia agarrou a blusa da rival e puxou com força. O tecido rasgou. Carla revidou, segurando a camiseta de Márcia e puxando para o lado. Mais um rasgo.
Elas cairam no gramado. Rolavam, tentando se imobilizar, puxando cabelo, segurando braços, rasgando mais um pedaço de roupa aqui e ali. A grama grudava na pele, o suor misturava com a terra. Ninguém gritava por socorro; o parque estava deserto naquela hora.
Carla, mais alta e forte, conseguiu montar em cima de Márcia e prender os braços dela contra o chão. Márcia ainda se contorcia, mas a respiração já vinha ofegante e os movimentos enfraqueciam.
— Desiste — disse Carla, sem soltar.
Márcia ficou quieta por alguns segundos. Depois baixou a cabeça.
— Tá… você ganhou.
Carla se levantou, ofegante, a blusa rasgada no ombro e sujeira no joelho. Ofereceu a mão. Márcia hesitou, mas aceitou. As duas ficaram de pé, olhando uma para a outra, cabelos desalinhados e roupas danificadas.
— Os meninos não precisam ficar brigando por nossa causa — falou Carla, mais baixa.
Márcia só assentiu com a cabeça.
Elas se separaram sem se abraçar, mas também sem mais gritos. No dia seguinte, na escola, João e Pedro ainda se olhavam torto… mas as mães, quando se cruzaram no portão, apenas se cumprimentaram com um aceno curto. A luta tinha ficado no gramado.
Fim?

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