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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Conto: Rivalidade no Tatame!:)

Rivalidade no Tatame



Na Academia Força e Equilíbrio, no centro da cidade, duas mulheres de trinta e cinco anos compartilhavam o mesmo horário de treino de jiu-jitsu brasileiro quase todos os dias. Marina, analista de sistemas, tinha cabelos escuros presos em um coque firme e uma postura determinada. Carla, professora de educação física, era loira, de ombros largos e sorriso competitivo que raramente desaparecia. Ambas haviam começado a praticar no mesmo mês, motivadas pela busca de disciplina e condicionamento. No início, trocavam dicas e cumprimentos cordiais. Com o passar das semanas, porém, cada avanço de uma passou a ser sentido como provocação pela outra.

Nas rolagens controladas, Marina tentava passar a guarda de Carla com insistência. Carla respondia com escapes precisos e tentativas de finalização. Os professores elogiavam o progresso de ambas, mas proibiam qualquer tipo de disputa formal ou ranking entre alunas. “Aqui se treina, não se compete por ego”, repetia o sensei. A rivalidade cresceu em silêncio: olhares carregados no vestiário, treinos mais intensos quando uma estava de frente para a outra, comentários baixos entre colegas.

Certa noite, depois de uma aula em que o sensei as separou de propósito, Carla abordou Marina no estacionamento.

— A academia não deixa. Mas a gente pode resolver isso fora. Sem público, sem regras de academia. Só para saber quem realmente está à frente.

Marina aceitou sem hesitar. Combinaram um horário no final de semana, em um pequeno ginásio alugado por horas, com tatame improvisado, sem árbitro e sem público. Apenas as duas, kimono branco, faixa azul recém-conquistada.

No dia marcado, o ginásio estava silencioso. Elas se cumprimentaram com um aperto de mão firme e se ajoelharam no centro do tatame. O combate começou em pé. Marina avançou primeiro, buscando a pegada na gola. Carla recuou, controlou o braço e puxou para a queda. As duas caíram no solo com impacto controlado. Marina imediatamente abriu a guarda fechada, puxando Carla para baixo. Carla posturou, tentou passar pela lateral direita. Marina elevou o quadril e quase encaixou um triângulo, mas Carla defendeu com o cotovelo e escapou para a meia-guarda.

O suor já escorria. Respiração pesada. Carla pressionava o ombro de Marina contra o tatame, buscando o controle lateral. Marina se contorceu, enfiou o joelho e recuperou a guarda. Trocaram posições por vários minutos: passagem de guarda, escapes, tentativas de kimura e de chave de braço. Nenhuma conseguia a finalização limpa. A rivalidade aparecia em cada movimento — a força de quem treina todos os dias, a técnica acumulada em meses de repetição, o orgulho de não ceder.

Carla finalmente conseguiu passar a guarda com um movimento rápido de joelho. Estabeleceu o controle lateral e transitou para a montada. Marina defendeu o pescoço com as mãos, tentando se girar. Carla manteve a pressão, isolou um braço e desceu o peso. Marina ainda tentou uma última reversão, elevando o quadril, mas Carla ajustou a base e encaixou a finalização: um armbar clássico, estendendo o braço de Marina com controle firme. Marina resistiu por alguns segundos, o rosto contraído pelo esforço, e então bateu duas vezes no tatame com a mão livre.

O som seco dos toques ecoou no ginásio vazio. Carla soltou imediatamente e se afastou. As duas ficaram deitadas por um instante, ofegantes, o kimono grudado no corpo pelo suor. Depois se sentaram. Carla estendeu a mão. Marina apertou.

— Você ganhou — disse Marina, ainda recuperando o fôlego. — Dessa vez.

Carla sorriu, cansada.

— Treino amanhã de novo. Como sempre.

Elas se levantaram, recolheram os pertences e saíram juntas. A rivalidade não desapareceu. Continuaria nos treinos diários, nas rolagens sob o olhar do sensei, no silêncio do vestiário. Mas agora havia um resultado claro: naquela noite, fora das regras da academia, Carla havia sido a melhor.

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