Conto: A Rainha do Bloco D
No presídio feminino de Santa Clara, o Bloco D era um território onde a lei escrita pouco importava. Ali, o poder se media em respeito forçado, olhar desafiador e punhos cerrados. Duas detentas disputavam o título de rainha do local há meses: Valéria “A Fera” Machado e Renata “A Serpente” Oliveira.
Valéria era alta, de ombros largos e voz rouca, condenada por assalto a mão armada. Dominava pelo medo puro. Renata, mais baixa e ágil, com olhos afiados e sorriso sarcástico, usava a inteligência e a crueldade calculada. Ambas tinham suas “soldadas”: pequenas gangues que controlavam o tráfico interno de cigarros, o acesso a celulares escondidos e até as melhores camas nas celas.
As brigas começaram pequenas. No refeitório, um empurrão “acidental” que virou soco no estômago. No pátio, um puxão de cabelo que terminou com unha arranhando o rosto. Na lavanderia, uma luta rápida onde Valéria conseguiu prender o braço de Renata atrás das costas até a outra gritar de dor. Cada confronto aumentava a tensão. As outras detentas torciam em silêncio, sabendo que só uma sairia como verdadeira soberana.
O dia decisivo chegou numa manhã de quinta-feira, durante o banho coletivo. O chuveirão do Bloco D estava lotado. Vapor quente subia, o cheiro de sabão barato misturava-se ao de suor e água clorada. Dezenas de mulheres se banhavam sob os jatos fracos, conversando baixo, lavando cabelos, esfregando o corpo. Valéria e Renata entraram quase juntas, cada uma cercada por suas aliadas.
O estopim foi uma provocação simples. Renata, ao passar por Valéria, murmurou alto o suficiente para todas ouvirem:
— Ainda usa aquele sabonete de pobre, Fera? Até o cheiro de você grita “segunda classe”.
Valéria girou no mesmo instante. O primeiro empurrão foi seco, jogando Renata contra a parede úmida de azulejos. O impacto ecoou. Em segundos, as duas estavam em cima uma da outra.
Foi uma catfight clássica e brutal. Unhas compridas e afiadas de Renata rasgaram o ombro de Valéria, deixando marcas vermelhas. Valéria respondeu com um puxão violento no cabelo molhado da rival, puxando a cabeça para trás e desferindo um soco no estômago. As duas escorregaram no piso encharcado, caindo e rolando. Água escorria pelos corpos enquanto elas se agarravam, se arranhavam, se chutavam. Grinhos, xingamentos e o som úmido de pele batendo em pele enchiam o chuveirão.
As outras detentas formaram um círculo imediato, gritando, incentivando, algumas torcendo por Valéria, outras por Renata. Ninguém interferia. As guardas demorariam a chegar.
Renata conseguiu montar em cima de Valéria por alguns segundos, tentando imobilizar os braços dela, mas a força bruta da Fera prevaleceu. Com um movimento poderoso, Valéria reverteu a posição, prendeu as pernas da rival e, num golpe final, pressionou o antebraço contra o pescoço de Renata enquanto a outra batia desesperadamente em seus ombros.
— Desiste — rosnou Valéria, ofegante, água escorrendo pelo rosto.
Renata, com o rosto vermelho e o ar falhando, finalmente bateu a mão no chão três vezes. Sinal de rendição.
O silêncio caiu de repente. Valéria se levantou devagar, o peito arfando, arranhões sangrando no ombro e no braço. Olhou para as dezenas de rostos molhados ao redor e declarou, com a voz rouca ecoando no azulejo:
— Agora todo mundo sabe. Eu sou a rainha deste bloco.
Ninguém contestou. Renata se arrastou até o canto, ofegante e derrotada, enquanto suas antigas aliadas já começavam a se afastar dela. Valéria caminhou até o chuveiro principal, deixou a água quente lavar o sangue e o suor, e as demais detentas se abriram em respeito silencioso.
A partir daquele dia, no Bloco D, só existia uma rainha.
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sábado, 10 de outubro de 2026
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