Rivalidade no Asfalto
O sol de final de tarde batia forte no para-brisa quando o leve impacto ecoou. Carol, de 28 anos, freou bruscamente o hatch prata. Logo atrás, a SUV preta de Renata, 31, parou com um solavanco. Os dois carros mal se tocaram — um amassado discreto no para-choque de um e um risco alongado no outro —, mas foi o bastante.
Carol desceu primeiro, cabelo preso num rabo-de-cavalo bagunçado, rosto vermelho de raiva.
— Você não olhou o retrovisor! Estava mudando de faixa sem dar seta!
Renata saiu do carro com a mesma fúria, óculos escuros empurrados para cima da cabeça.
— Eu dei seta sim! Você que veio por cima, desatenta. Agora quem vai pagar o conserto?
Os gritos subiram. Cada uma jurava que a outra estava errada. Vizinhos olharam pela janela. No fim, com o trânsito apitando atrás, Renata deu um passo à frente, voz baixa e cortante:
— Chega de conversa fiada. Amanhã, oito da noite, no terreno abandonado perto da antiga fábrica de tijolos. Só nós duas. Quem perder paga o conserto do carro da outra. Combinado?
Carol sorriu de lado, o orgulho ferido.
— Combinado. E não leve ninguém. Se aparecer uma amiga sua, eu mando tudo pro inferno.
Elas trocaram números só para confirmar o local e foram embora, cada uma com o coração batendo mais forte de ódio e adrenalina do que de medo.
No dia seguinte, o terreno isolado era só mato alto, ruínas de tijolos e silêncio. O sol já tinha se posto; só restava a luz azulada do entardecer e o farol fraco do carro de Carol. Renata chegou pouco depois, estacionou longe e desceu.
As duas se olharam em silêncio. Tinham combinado a roupa: shorts justos de academia e tops esportivos. Carol usava um top preto curto que deixava a barriga à mostra e shorts cinza; Renata, top vermelho e shorts pretos. Nenhuma joia, nenhum tênis escorregadio — só meias e o chão de terra batida.
— Pronta pra pagar meu conserto? — perguntou Renata, rolando os ombros.
— Sonha. Você que vai pagar o meu.
Não houve mais palavras. Carol avançou primeiro, tentando um empurrão no peito. Renata desviou, agarrou o braço dela e puxou. As duas caíram juntas no chão empoeirado. Carol rolou por cima, tentando imobilizar os braços de Renata. Renata, mais pesada, usou a força das pernas e conseguiu virar a rival, ficando por cima. Os shorts e tops já estavam sujos de terra.
Carol empurrou o rosto de Renata para o lado com o antebraço e conseguiu se soltar. Levantaram-se quase ao mesmo tempo. Agora era troca de empurrões e tentativas de derrubar. Renata conseguiu um golpe baixo nas pernas de Carol, que cambaleou. Carol respondeu com um empurrão forte no ombro, mandando Renata contra um monte de tijolos velhos. O impacto fez Renata soltar um gemido de dor, mas ela se recuperou rápido e investiu de volta.
A luta ficou mais fechada. Elas se agarraram pelos ombros e pelos braços, tentando desequilibrar uma à outra. Suor misturado com poeira escorria pelos rostos. O top de Carol escorregou um pouco no ombro; o de Renata ficou torto. Nenhuma parou para arrumar. Carol conseguiu uma chave de braço improvisada e forçou Renata ajoelhar. Renata, teimosa, usou o peso do corpo e rolou, puxando Carol junto. As duas rolaram no chão, pernas entrelaçadas, braços se empurrando.
Por quase quinze minutos o único som foi o ofego, o atrito dos corpos e ocasionais gritos abafados de esforço. Carol tentou um golpe de joelho, Renata bloqueou com a coxa. Renata tentou segurar o cabelo de Carol, Carol se soltou e respondeu com um empurrão no peito que fez as duas caírem novamente.
No fim, foi a resistência que decidiu. Carol, mais leve e rápida no começo, começou a perder fôlego. Renata, respirando pesado mas ainda firme, conseguiu montar por cima dela, prender os pulsos no chão e manter o peso do corpo. Carol se debatia, tentava chutar, mas os braços já não tinham força.
— Desiste — rosnou Renata, o rosto suado a poucos centímetros do dela.
Carol ainda tentou se libertar por longos segundos. Quando o ar faltou de verdade, ela bateu duas vezes no chão com a mão livre.
Renata soltou e se levantou devagar, estendendo a mão. Carol olhou para a mão oferecida, spitou poeira e aceitou. As duas ficaram de pé, suadas, sujas, com marcas vermelhas nos braços e nas pernas, tops e shorts empoeirados e desalinhados.
— Você paga o meu — disse Renata, ainda ofegante.
Carol limpou a boca com o dorso da mão e acenou com a cabeça, orgulho ferido mas palavra cumprida.
— Mando o orçamento amanhã. E… foi uma luta limpa.
Renata soltou um riso curto e rouco.
— Foi. Mas na próxima vez olha o retrovisor direito.
Elas caminharam até os carros em silêncio. Ninguém mais estava ali. Só o vento no mato e o eco da rivalidade que, pelo menos naquela noite, tinha um vencedor.
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